Seus principais pensamentos originais.
Minha
produção intelectual se iniciou em 1975, depois de cerca de 10
anos de trabalho como psicoterapeuta, lidando inicialmente com questões
relativas às dificuldades sexuais e logo em seguida com temas relativos
à vida conjugal. Na prática clínica sempre atendi todo
o tipo de paciente, de modo que construí sólida experiência
a respeito de todas as questões relativas à prática psiquiátrica.
Nunca deixei de usar medicamentos psicotrópicos durante tratamentos psicoterápicos,
de modo que o que hoje se prega venho fazendo desde 1967.
Como
sempre tive um espírito um tanto rebelde e sempre fui avesso a me integrar
em grupos que defendiam esse ou aquele ponto de vista, não fiz parte
das sociedades de psicanálise e nem me aliei aos organicistas. Trabalhei
por conta própria, o que foi fortemente facilitado pelo enorme sucesso
que obtive em clínica particular desde os primeiros meses de trabalho.
É claro que atribuo isso muito mais a dons inatos -- relativos à
capacidade de ajudar e de se fazer confiável -- do que aos conhecimentos
que tinha. Me senti reassegurado por esse bom resultado e, apesar de não
tão bem preparado, agi com prudência, o que me impediu de cometer
graves erros.
Aos
poucos fui formando meus próprios juízos, tanto no campo da sexologia,
que estava nascendo, como nas questões relacionadas com a paixão
e as dificuldades conjugais que se tornavam cada vez mais freqüentes e
explícitas. A complexa e conturbada evolução dos costumes
a partir da segunda metade dos anos 1960 se apresentou diante dos meus olhos
e, livre dos preconceitos que as doutrinas prontas nos impingem, pude olhar
para tudo o que acontecia de uma forma peculiar, única. É claro
que minha vida pessoal também esteve em reboliço, já que
em psicologia somos os observadores e também nossos principais clientes.
O
fato de ter sido feliz nas soluções que dei aos meus dilemas pessoais
me ajudou muitíssimo. Acompanhei algumas outras poucas histórias
de sucesso em novos relacionamentos afetivos, junto como inúmeros desastres
determinados por motivos diversos. Meus textos de 1976 até 1982 são
muito ricos em novas idéias, todas elas descritas de uma forma estabanada
e apressada, como quem não quer perder a originalidade. Tinha medo de
que outros autores pudessem produzir pensamentos similares. Hoje sei que isso
não aconteceria, de modo que minha pressa era infundada. Independentemente
desse fator, em minha mente jorravam novas idéias; algumas provocavam
grande susto em mim e provavelmente nas outras pessoas.
Entre
1983 e 1990 vivi uma fase intermediária, com uma produção
intelectual irregular e variada, lidando com temas correlatos, tais como obesidade,
dependência psicológica de drogas -- em especial, do cigarro --
e completando algumas das minhas primeiras idéias. Em especial, publico
um livro inteiramente dedicado à vaidade, relevante -- segundo penso
-- mas que não esgota esse tema tão fundamental. Surge o primeiro
texto mais maduro, o que trata da psicologia masculina.
Entre
1991 e 2001 rescrevo e complemento, agora de forma madura, meus textos anteriores.
Trato os mesmos temas: liberdade, amor, sexo, valores morais, maturidade emocional,
solidão, etc. As grandes questões da psicologia norma foram as
que sempre me intrigaram. Minhas observações não tiveram
origem na psicopatologia, como foi o caso da psicanálise. Meus pacientes,
como grande regra, foram e são pessoas normais vivendo problemas existenciais
e cotidianos.
Penso
que, depois de passar por caminhos tumultuados e nos quais muitas vezes me vi
desesperançado, acabei sendo capaz de sugerir soluções
bastante interessantes para importantes questões da nossa existência,
Elas passam por algumas premissas básicas que passarei a relatar, nem
sempre respeitando a ordem que foi elaborada. Tentarei descrevê-las da
forma mais sistemática e útil possível. Trata-se de resumo
brevíssimo, síntese de 20 livros e 35 anos de trabalho obstinado.
1.
Tudo começou quando fui me apercebendo que sexo e amor não são
parte do mesmo impulso instintivo. Ao contrário, no mais das vezes, estão
em oposição. Tal ponto de vista, defendido a partir de
1977, era uma afronta à postura psicanalítica que dominava o pensamento
oficial. Defendiam -- e defendem -- a idéia de que amor e sexo fazem
parte de nossa constituição libidinal, parte do Instinto de Vida.
Reconheci no amor um impulso regressivo -- não instintivo -- relacionado
com o desejo de retornar à paz e harmonia uterina. Uma espécie
de ferida traumática relacionada com o nascimento. Desse ponto
de vista, o amor substitui o instinto de Morte de Freud: ao invés de
procurarmos a paz na morte, o que é apenas uma suposição,
procuramos reencontrar a paz perdida, o paraíso perdido. O amor
é o sentimento que temos por aquela pessoa cuja presença nos provoca
a sensação de paz e harmonia necessária para atenuar nosso
desamparo crônico. É evidente que o primeiro objeto do
amor é nossa mãe. Ela é substituída várias
vezes ao longo da vida. Poucos são os que prescindem de algum tipo de
elo amoroso e conseguem lidar com a sensação de desamparo de uma
forma serena e que prescinda de parceiros. O amor é, pois, fenômeno
interpessoal, de modo que não reconheço a existência do
amor por si mesmo. O conceito de narcisismo, nos meus textos, é
abandonado. Reconheço que existe algo que sentimos por nós mesmos,
mas o considero de natureza puramente sexual.
2.
Desde o início, o amor está em oposição ao processo
de constituição da individualidade: é como se a criança
não quisesse se tornar independente, preferindo o colo da mãe.
Ela tem que ser estimulada a construir sua independência, que é
favorecida pelo desenvolvimento da razão, através da linguagem,
e também pelo surgimento das manifestações sexuais autoeróticas
-- tudo isso a partir do segundo ano de vida. Uma vez constituída
uma individualidade básica, ela se coloca em franca oposição
ao anseio amoroso. O medo de perder a individualidade, o medo do sofrimento
em caso de ruptura e o medo da felicidade definem, intimamente, um importante
fator anti-amor. Assim, queremos um bom envolvimento amoroso e a ele
nos opomos porque nos sentimos ameaçados pela fusão. Uma
solução usual consiste no encantamento amoroso por pessoa bastante
diferente: o encantamento aproxima, ao passo que as diferenças irritam
e afastam.
3.
O medo da felicidade ganha importância como fator anti-amor e também
na vida como um todo: vivenciamos o paraíso e depois a ruptura derivada
do nascimento. Parece que sempre que nos aproximamos de uma condição
de harmonia experimentamos o pânico de que uma nova desgraça irá
acontecer. O medo da felicidade é responsável por nossas tendências
auto-destrutivas. Está relacionado com o fenômeno amoroso,
assim como em Freud está relacionado com o instinto de Morte. A felicidade
nos assusta também em outras áreas e se constitui em importante
obstáculo interno à realização de todos os nossos
projetos. É o nosso maior inimigo e se encontra dentro de nós.
4.
No estudo das escolhas amorosas, me deparei com o fato de que a grande maioria
dos casais é diferente quanto ao desenvolvimento emocional: um membro
é mais intolerante a frustrações e contrariedades e pode
ser definido como egoísta; o outro é tolerante até demais
e costuma ser chamado de generoso. Esse tipo de aliança é
descrito por E. Fromm: se estabelece entre o sádico -- egoísta
-- e o masoquista -- generoso. Aparentemente é o sádico que manda,
grita e esbraveja. Na realidade o poder está mesmo é na mão
do masoquista, ou seja, do generoso, o que dá mais que recebe e que pode
parar de dar a qualquer momento. A grande maioria destas uniões termina
por iniciativa do generoso -- apesar das constantes ameaças do egoísta.
O tema do desenvolvimento emocional e moral chegou a mim por esse caminho.
Tornou-se muito importante e desenvolvi crescente postura crítica em
relação à generosidade: o egoísmo só irá
desaparecer quando desaparecer a generosidade. Ela passou a ser vista como uma
forma menor de imaturidade emocional, onde a dependência e o medo de rejeição
predominam sobre a razão. Ainda assim, trata-se de uma imaturidade. Na
generosidade a culpa é indevida e opressiva. Um passo adiante na evolução
emocional e moral define a forma de ser da pessoa justa: aquela que trata a
si mesma e aos outros segundo um único padrão moral.
5.
O justo é essencialmente maduro e bem constituído em sua individualidade.
Pode muito bem ficar sozinho. Se optar por um relacionamento amoroso,
não agirá nem com a imaturidade e dependência prática
do egoísta -- que costumava ser chamado de tipo narcisista, o que sempre
aumentou a confusão a respeito do uso deste termo -- e nem com a condescendência
que deriva da dependência emocional do generoso. Não terá
medo da fusão romântica porque o individualismo predomina sobre
o amor. Acabará por estabelecer um novo tipo de aliança amorosa,
mais parecida com a amizade -- menos possessiva e nada dominadora -- que tenho
chamado de +amor, ou seja, mais do que amor. Trata-se da proposição
de um novo tipo de romance adaptável aos novos tempos, igualitários.
6.
Tudo indica que, hoje em dia, uma boa qualidade de vida implica em um desenvolvimento
emocional -- e concomitante evolução moral -- muito maior do que
nos era exigido até há poucas décadas. A vida
comunitária, que ainda trazia muitos ranços da época dos
clãs familiares, nos levava a ter uma falsa impressão de independência:
de fato, nos tornávamos independentes de nossos pais para nos tornarmos
dependentes de nossos novos parceiros amorosos. Mesmo aquelas pessoas que conseguiam
grande evolução intelectual acabavam se perdendo em dependências
emocionais e também em enganos graves de avaliação moral.
Assim sendo, o individualismo -- exercício de nossa individualidade
-- é parte desse importante desenvolvimento emocional e não deveria
continuar a ser tratado como algo com conotação moral negativa.
Individualismo não é egoísmo -- o egoísta, dependente
para coisas práticas, é tudo menos individualista! Individualismo
é pleno desenvolvimento emocional, abertura para toda uma gama de possibilidades
de existência que faz com que o homem possa efetivamente se tornar um
ser livre. Esse é, pois, a face positiva da contemporaneidade,
da cultura de massas que tende a nos fazer homogêneos até mesmo
em nossos gostos e sonhos. A cultura de massas depende de avanços tecnológicos
que, bem utilizados, nos fazem mais competentes para ficar melhor conosco, menos
dependentes das outras pessoas. Vivemos sobre um fio de navalha: por um lado,
a opressão de uma sociedade homogeneizadora; por outro, uma extraordinária
possibilidade de liberdade para aqueles que se ocuparem de se desenvolver emocionalmente
e não apenas se dedicarem às superficialidades estéticas
que a época estimula.
OBSERVAÇÃO: DEPOIS DE TUDO FEITO, PARECE MUITO SIMPLES
E FÁCIL. NA REALIDADE FORAM DÉCADAS DE TENSÃO E NÃO
FORAM POUCOS OS IMPASSES: COMO RESOLVER, POR EXEMPLO, A QUESTÃO DA TENDÊNCIA
FORTÍSSIMA PARA A FUSÃO ROMÂNTICA? AO RENUNCIARMOS A ISSO
NÃO ESTARÍAMOS PERDENDO ALGO DE EMOCIONANTE E RICO? COMO IR CONTRA
UMA FORMA DE SENTIR CONSAGRADA HÁ QUASE 200 ANOS? O INDIVIDUALISMO É
MESMO UM AVANÇO EMOCIONAL? FORAM MOMENTOS DIFÍCEIS, MUITAS VEZES
ENVOLVENDO A VIDA PESSOAL. FOI EXATAMENTE NESSE SETOR QUE PUDE AVANÇAR
MAIS: TRATA-SE, É CLARO, DE AVANÇOS QUE DEPENDERAM DE UM TRABALHO
REALIZADO A QUATRO MÃOS. A IDÉIA DE UM NOVO TIPO DE ROMANCE JÁ
APARECE COMO ATRAENTE PARA A MAIORIA DAS PESSOAS MAS ELAS AINDA VÊEM ISSO
COMO UMA HIPÓTESE TEÓRICA, LONGE DE SER FACTÍVEL. AO LONGO
DE TODOS ESSES ANOS, A QUESTÃO SEXUAL SE APRESENTAVA COMO AINDA MAIS
DIFÍCIL DE SER EQUACIONADA; AS POSSIBILIDADES DE UMA VIDA SEXUAL GRATIFICANTE
NUM CONTEXTO AMOROSO SÓ PUDERAM FICAR MAIS CLARAS NOS ÚLTIMOS
POUCOS ANOS.
7.
O instinto sexual se manifesta, de modo claro, no fim do primeiro ano de vida,
no momento em que a criança começa a se perceber como isolada
da mãe ( nascimento psicológico ). A estimulação
das chamadas zonas erógenas determina agradável sensação
de desequilíbrio homeostático -- talvez o único sentido
como agradável. O fenômeno é auto-erótico, já
que a estimulação é feita pela própria criança.
Assim, o sexo é, ao menos no início -- e penso que ao longo de
toda a vida --, um fenômeno pessoal. Nisso esse instinto se distingue
definitivamente do amor, que, desde o início, depende de um objeto externo.
A separação entre sexo e amor destrói o conceito de narcisismo.
O que sentimos em nós -- e eventualmente por nós -- é excitação
sexual e não amor. Não devemos confundir auto-estima com amor
por si mesmo. Auto-estima é um juízo e não um sentimento.
8.
Nosso instinto sexual possui um outro ingrediente, que se chama VAIDADE, conceito
que na psicanálise também ficou embutido na idéia de narcisismo,
gerando mais confusão ainda. Trata-se de uma sensação de
excitação que deriva de nos percebermos no centro das atenções,
atraindo olhares de admiração ou de desejo. Essa manifestação
depende da interferência da razão, já que temos que reconhecer
que estamos despertando sentimentos positivos e não apenas estarmos sendo
olhados. Suas manifestações iniciais se dão pelos 5-6 anos
de idade. A vaidade ganha força e se transforma na peça
fundamental da vida de quase todos nós a partir da puberdade. Essa manifestação
de nossa sexualidade é muito complexa, já que se manifesta para
além do corpo. A vaidade intelectual -- o desejo de se destacar por essa
área -- pode ser extremamente nociva ao conhecimento.
9.
Sendo a vaidade fenômeno assim pessoal, reforça a precária
tendência inicial na direção da individualidade. Porém,
por força da sua característica ligadas ao que é superficial,
pode determinar um individualismo só de aparências e comprometido
com o egoísmo. Esse risco, comum nas pessoas imaturas e que
foram chamadas de narcisistas por Freud, pode ser responsável por confusões
e dificuldades que temos em compreender como pensam e agem certas pessoas extrovertidas,
alegres e, ao mesmo tempo, muito intolerantes a contrariedades e mal formadas
moralmente. A vaidade, apesar de provocar prazer autoerótico,
nos faz profundamente dependentes da aprovação externa, do maior
número possível de pessoas -- e que serão aquelas que nos
olharão com admiração ou desejo. Trata-se de um processo
pessoal de satisfação mas que nos faz frágil em relação
aos padrões propostos pela sociedade na qual vivemos.
10.
Um dos pontos mais marcantes dos meus textos está relacionado com o registro
de diferenças biológicas -- e não culturais -- entre os
sexos. Reconheço um desejo ativo e visual nos homens, ao passo que a
mulher se excita ao perceber desejada ( não possui, pois, o desejo visual
). Essa diferença beneficia muito a mulher, pois sua vaidade
se alimenta do desejo que desperta e dos olhares que atrai. Trata-se de uma
boa surpresa que elas têm durante os anos da puberdade. A outra
diferença implica na ausência de período refratário
após o orgasmo nas mulheres. Aqui a vantagem é masculina, já
que o homem experimenta sensação de saciedade e relaxamento após
o coito. Muitas mulheres se sentem frustradas por não experimentarem
igual relaxamento e atribuem isso a problemas pessoais ou a falhas no parceiro.
A verdade é que a masturbação, por exemplo, é praticada
com muito mais regularidade pelos homens do que pelas mulheres porque para elas
sobra uma excitação residual que pode ser perturbadora. As que
não se aborrecem -- e até gostam -- dessa excitação
residual acabam sendo as que melhor vivem sua sexualidade.
11.
Os homens registram o fato de não serem desejados do mesmo modo que desejam
como enorme frustração. Se sentem inferiorizados e muitos desenvolvem
grave hostilidade invejosa em relação às mulheres. A inveja
masculina, anterior e mais importante que a feminina, é a responsável
pelo machismo. Os homens afastaram as mulheres das posições
chaves nas áreas públicas de atividade para ali reinarem e dali
extraírem uma superioridade financeira e de posição social.
Essa condição privilegiada sempre foi usada para neutralizar a
superioridade sexual feminina. As mudanças que têm ocorrido nos
últimos 40 anos vêm alterando esse equilíbrio entre o poder
econômico masculino e o poder sensual feminino.
12.
Muitas mulheres, por serem excluídas dos espaços de destaque nas
atividades sociais, também desenvolvem hostilidade invejosa em relação
aos homens. Como nossas sociedades tendem a privilegiar a condição
masculina desde a infância, já que a eles estará reservado
o destaque social, muitas meninas reconhecem na ausência do pênis
a origem de seu destino inferior. A inveja do pênis é
o termo que descreve a inveja feminina, que considero secundária à
masculina uma vez que é a postura ressentida dos homens a que gera as
diferenciações sociais entre os sexos e tenta excluir as mulheres
das melhores posições. A inveja do pênis não
é universal, podendo estar presente em cerca de 50% das mulheres. A inveja
masculina é quase universal.
13.
A inferioridade sexual masculina sempre foi negada pelos homens. Assim, constrói-se
um modelo social no qual meninos e meninas são educados diferentemente,
sendo que se exige mais e se dá mais privilégios aos meninos.
O padrão viril é guerreiro e forte. O feminino é dócil,
caseiro e ligado à reprodução. Meninos e meninas
podem se revoltar contra o padrão que lhes é imposto apenas pelo
fato de serem de um ou outro sexo. Isso, juntamente com outros ingredientes,
pode influenciar dramaticamente a vida sexual adulta, predispondo para a rota
homossexual, tratada como um desvio fácil, comum, gratificante mas não
natural e muito menos inato.
14.
Meninos e meninas crescem em campos antagônicos e, na puberdade, a tensão
entre os sexos se agrava a partir do surgimento do desejo visual masculino.
Moças ressentidas com o tratamento humilhante que receberam durante a
infância poderão usar o poder sensual recém adquirido para
humilhar intensa e deliberadamente os rapazes, que usarão todos os recursos
para seduzi-las e depois rejeitá-las. Está criado um
contexto terrível, de guerra óbvia entre os sexos, no qual a sexualidade
está totalmente acoplada a manifestações de hostilidade
agressiva e a jogos de poder. Não há nenhum indício
de que, como regra, a sexualidade possa ser entendida como manifestação
amorosa. O sexo e a agressividade constituem uma aliança difícil
de ser rompida, determinando inclusive tendência à inexistência
de desejo quando existe clima de ternura e companheirismo. É o que acontece
entre amigos de sexo diferente ou mesmo em casais apaixonados, onde a inibição
sexual é a regra.
15. A situação é igual na homossexualidade masculina: rapazes
mais delicados crescem com raiva de seus pais e/ou colegas que podem, com as
brincadeiras e cobranças usuais, tê-los humilhado. Desenvolvem
desejo exatamente por aqueles que lhes despertam o ódio! Os
homossexuais não têm nada contra as mulheres e talvez seja essa
uma das razões da ausência de desejo. São amigos das mulheres
e não as desejam. Odeiam os homens e os desejam. A situação
heterossexual masculina não é diferente: os machões desejam
sexualmente as mulheres mas as odeiam. Se divertem mesmo com os outros homens,
dos quais são amigos, confidentes e com os quais se sentam nos bares
para falar mal e desqualificar as mulheres de quem andam atrás o tempo
todo. As mulheres mais femininas e sensuais são, como regra,
as que mais ódio têm dos homens. Elas usam todo o poder sensual
para humilhá-los, para provocá-los. Se vierem a ter intimidade
sexual com eles, não se entregam de verdade e não raramente são
anorgásmicas. Essas mulheres são as que se dão
melhor com os homossexuais, já que, mesmo com outras mulheres, têm
relações de rivalidade: competem com as mulheres e se dedicam
a agredir e humilhar os homens. Dessa forma, não há clima
para que a maioria das mulheres possa viver uma sexualidade livre e voltada
para o prazer e não para o poder. Isso por si só já seria
complicado por causa da inexistência do período refratário
que, por assim dizer, subtrai o sentido da prática sexual “apenas”
pelo prazer -- nem sempre a excitação residual é sentida
como prazerosa.
16.
Sendo o sexo fortemente acoplado ao jogo de poder e a uma guerra sangrenta entre
homens e mulheres, é fácil compreender que esse instinto reforça
dramaticamente as já fortes tendências que temos de escolher mal
nossos parceiros sentimentais: especialmente durante os anos da mocidade,
escolhemos alguém por quem sentimos forte desejo, já que fomos
ensinados a tomar isso como indício de encantamento amoroso. Rejeitamos
parceiros adequados porque por eles não sentimos desejo -- já
que não sentimos raiva e sim ternura. Acabamos nos casando com alguém
com quem iremos brigar, pelo resto da vida, as chamadas brigas “normais”
dos casais. Escolhemos nossos amigos segundo critérios de afinidade
e carinho, ao passo que nos encantamos sentimentalmente por pessoas que nos
irritam e por quem sentimos raiva e desejo. O resultado não
poderia ser outro que não uma vida em comum desastrosa. Não podemos
deixar de lembrar com saudade os “bons tempos” em que os pais que
se encarregavam de escolher os cônjuges para seus filhos!
17.
Durante muitos anos não vi saída para esse dilema, para a inevitável
tensão entre os sexos, para a perpetuação do jogo de poder
entre eles. Não via solução também para as questões
sociais, já que estou convencido de que o desarmamento psicológico,
emocional e sexual, é précondição para que as pessoas
tenham uma postura social menos massacrante daqueles menos favorecidos pelo
destino -- em todos os sentidos, desde a classe social em que nascem até
suas peculiaridades genéticas. Apesar de reconhecer autonomia
no fenômeno sociológico e político, os fatos nos tem mostrado
o quanto o poder determina o surgimento de condutas nefastas até mesmo
nos mais delicados revolucionários. Sem o desarmamento psicológico
dos homens e das mulheres o planeta caminha para a destruição
de uma forma que parece quase inexorável. O avanço na qualidade
das relações amorosas entre os sexos já era um alento,
mas me parecia fundamental desarmar a bomba da sexualidade. Isso parecia impossível,
já que sempre considerei os fundamentos em que as diferenças se
alicerçam como biológicos e, porisso mesmo, irreversíveis.
18.
Eis que, de uns 10 anos para cá, surge um fato novo, e que derivou de
atos espontâneos e despretensiosos exercidos por préadolescentes
e adolescentes: O FICAR. As trocas de carícias praticadas de
forma ingênua, provavelmente determinada por imitação do
comportamento dos adultos, vem se estendendo ao longo dos anos da puberdade.
Elas não envolvem compromisso e o jogo de poder é mínimo.
Os meninos têm, pela primeira vez na história, a oportunidade de
se aproximar fisicamente de meninas de mesma faixa etária e mesma condição
social. No passado, as meninas de 13-14 anos só se interessavam
por rapazes mais velhos. Usavam desde cedo o poder sensual para chegar a um
compromisso -- com alguém que valesse a pena. Isso sempre estimulou muito
a competição entre os meninos e sua ambição. Essa
competição acabaria inevitavelmente por agravar desigualdades
sociais e econômicas, sendo que os mais bem sucedidos teriam acesso às
mais belas. De repente, os meninos não se sentem tão
rejeitados e se tornam muito mais calmos, talvez até mesmo um tanto acomodados
demais. As moças, que agora não podem mais contar com as facilidades
derivadas do poder sensual, tratam de se empenhar mais no crescimento pessoal
e profissional. Torna-se possível imaginar o mundo tomando novas
feições, desta vez mais homogeneizadoras das relações
entre os sexos e também menos competitivo e virulento. É claro
que o processo ainda é incipiente e que toda a pressão social
a favor da beleza, perfeição física e sucesso a qualquer
custo parece ir contra essa tendência que nasce lentamente a partir do
cotidiano da nossa melhor juventude. O QUE FICOU CLARO, PARA MIM, É QUE
EU TINHA SUBESTIMADO A ALMA HUMANA E SEUS PODERES. HAVIA, SEM PERCEBER, PRIVILEGIADO
A BIOLOGIA. O FATO É QUE OS HOMENS PODEM SENTIR DESEJO VISUAL E NÃO
SE SENTIREM OBRIGADOS A IR ATRÁS DAS MULHERES. O INVERSO TAMBÉM
É VERDADEIRO: ELAS PODEM NÃO TER O DESEJO SEXUAL E PODEM AINDA
ASSIM SE APROXIMAR DELES. O DESEJO VISUAL NÃO É UMA ORDEM, UM
MANDAMENTO. É APENAS UMA PECULIARIDADE INATA QUE PODE OU NÃO SER
ACATADA.
19.
Se finalmente homens e mulheres se tornarem amigos, se puderem estabelecer relacionamentos
baseados em ternura e companheirismo -- o +amor que citei antes --, se a individualidade
constituir-se de forma adequada e vier acompanhada da contrapartida moral, se
a sexualidade se tornar livre da agressividade e puder, de fato e pela primeira
vez, se acoplar a sentimentos positivos entre as pessoas, então poderemos
voltar a sonhar com uma nova ordem política e social. Sem essa evolução
psicológica, nada é possível.
OBSERVAÇÃO:
CABE NOVAMENTE A RESSALVA DE QUE TUDO ISSO QUE PARECE FÁCIL DO PONTO
DE VISTA INTELECTUAL AINDA NÃO É SEQUER HIPÓTESE NA MENTE
DA MAIORIA DAS PESSOAS, CONTAMINADAS COM UMA CULTURA DE MASSA QUE PRESSIONA
EXATAMENTE NO SENTIDO DA COMPETIÇÃO, DA FELICIDADE ARISTOCRÁTICA,
AQUELA QUE SÓ PODERÁ SER ATINGIDA POR UM PEQUENO NÚMERO
DE PESSOAS E QUE DESPERTARÁ A HOSTILIDADE INVEJOSA DA MAIORIA. MINHAS
REFLEXÕES ABREM O CAMINHO PARA A FELICIDADE DEMOCRÁTICA, AQUELA
BASEADA NO BEM ESTAR DE TODOS; OU, PELO MENOS, NUM BEM ESTAR QUE NÃO
É EXCLUDENTE. OU SEJA, A FELICIDADE AMOROSA E SEXUAL DE UMA PESSOA NÃO
IMPEDE O MESMO PARA TODAS AS OUTRAS. O MESMO VALE PARA A MATURIDADE EMOCIONAL,
A EVOLUÇÃO MORAL E PARA OS PRAZERES RELATIVOS AO CONHECIMENTO
E ÀS TROCAS INTELECTUAIS ENTRE AMIGOS.
NADA
DISSO ME PARECE UTOPIA, SONHO IMPOSSÍVEL DE SER REALIZADO. SE FORMOS
CAPAZES DE IMPEDIR A DESTRUIÇÃO DO PLANETA, É PARA LÁ
QUE IREMOS CAMINHAR.
Escrito em março de 2003.
Flávio Gikovate